Manezinha da Ilha e mimada assumida, ela ficou conhecida nacionalmente ao participar da nona edição do Big Brother Brasil. Após sua passagem pela casa mais vigiada do país, Ana luta contra o preconceito sofrido por ex-BBBs, acredita existir manipulação nos resultados e confessa que, se soubesse como seria todo o processo, não teria se inscrito no programa.
PITY: Por que se inscreveu no Big Brother? Já tinha se inscrito alguma outra vez antes de ser selecionada?
ANA: Eu sempre tive vontade de participar do BBB. Mas só tive coragem, e esperança de entrar e ter a possibilidade de ganhar, após o BBB7, pois o Alemão não ficou contando historinha triste, nem falando que era pobre. Ele ganhou pela pessoa que ele é. E como eu venho de uma família financeiramente bem de vida, vi que tinha a possibilidade de ganhar. Então me inscrevi no BBB8, fui chamada para a tão falada cadeira elétrica [processo de seleção] e quase entrei. Em 2009, me inscrevi de novo, para a nona edição, mandei o DVD e fui chamada novamente para a cadeira elétrica. Só que dessa vez eu entrei.
PITY: Onde, como e quando recebeu a notícia de que havia sido selecionada?
ANA: A certeza mesmo de que eu fui selecionada para entrar no BBB9 eu tive dia quatro de janeiro de 2009, quando um produtor do programa foi na minha casa me buscar.
PITY: Por que acha que lhe escolheram?
ANA: Por eu ser verdadeira e autêntica. Meu DVD era muito simples, mas eu falei como eu era, sem fazer tipo algum. Mostrei que era uma pessoa com defeitos e qualidades, sem vergonha nem medo de ser quem eu sou.
PITY: Sua participação no programa chamou a atenção do Brasil. Você foi a única catarinense, até hoje, que se destacou dentro da casa e que chegou perto do prêmio final. Por que acha que isso aconteceu? O que acha que tem/fez que os outros catarinenses não tiveram/fizeram?
ANA: Eu nem lembro quem foram os outros catarinenses que entraram, mas eu me destaquei por ser verdadeira e sincera.
PITY: O Big Brother é a porta certa para quem quer tentar a fama, mesmo que instantânea?
ANA: Não! Ter fama de ex-BBB é a pior coisa para uma pessoa que sonha em entrar no meio artístico, pois ele é muito cruel com os ex-BBBs. Esse meio acha que ex-BBBs só querem ganhar fama, sem estudar, sem ter um currículo, coisas que muitos ex-participantes realmente fazem. Não querem estudar, só querem aparecer exibindo o corpo, saindo com diretores ou algo do tipo (pois isso acontece, mas não vou citar nomes).
PITY: Afinal, quem é o Boninho [diretor do reality]?
ANA: Como profissional ele é ótimo, brilhante, mas como pessoa ele não é bom, pois não sabe tratar com respeito o próximo.
PITY: O que mudou na sua vida depois do BBB?
ANA: Mudou muita coisa ao meu redor, principalmente o modo como as pessoas me enxergam...
PITY: A edição favorece alguns participantes?
ANA: Eu não sei, pois não consegui ver todos os programas da minha edição, mas acho que quem realmente sabe o que acontece lá dentro é quem assiste ao PPV (pay-per-view), pois é impossível editar 24 horas em 15 minutos.
PITY: Você acredita que há manipulação nos resultados?
ANA: Sim.
PITY: Se pudesse voltar a fita, faria algo diferente lá dentro?
ANA: Não.
PITY: Sua relação com a vovó Naná, a participante mais velha do programa, foi um dos chamarizes da nona edição. A amizade continuou fora da casa? Vocês ainda se falam?
ANA: Claro, eu adoro a Naná! Nós nos falamos quase todos os dias.
PITY: Você possui contato com algum colega de confinamento?
ANA: Sim, com quase todos.
PITY: Ao sair do programa, você se envolveu em uma briga com a vice-campeã, Priscila. O que rolou?
ANA: Eu não briguei com ela. Ela que agiu de uma forma grosseira, o que acabou ficando mal pra ela, pois todos viram que a fama subiu à cabeça.
PITY: Informações de bastidores contam que rola muito esporro do Boninho, via microfone, quando vocês não estão no ar. Isso procede?
ANA: Sim, mas tiveram muitos outros esporros bem piores do que esses que devem ter vazado...
PITY: O que não pode de verdade dentro da casa do BBB?
ANA: Comentar os esporros que o Boninho nos dá.
PITY: Muita gente acha que vocês, participantes, são marionetes nas mãos da direção do programa. Eles exigem algum tipo de comportamento lá dentro?
ANA: Comigo isso nunca aconteceu, mas não posso responder pelos outros participantes.
PITY: Acha que o Max foi merecedor do prêmio de um milhão?
ANA: Na minha opinião, não, mas não tenho nada contra ele.
PITY: Você não ganhou um milhão, mas chegou perto, ficou em quarto lugar. Por que acha que foi eliminada?
ANA: Prefiro não comentar, pois eu não fui eliminada...
PITY: Deu para ganhar dinheiro assim que saiu do programa? Hoje já se passaram dois anos. Você ainda fatura com o rótulo de ex-BBB?
ANA: Sinceramente, não, pois eu não me sujeito a qualquer coisa. Eu não entrei no BBB para mostrar o meu corpo ou para viver da minha imagem. Eu sou muito mais do que uma ex-BBB! Sou uma guria que estuda muito. Acho que foi por isso que, após a minha edição, assim que o contrato com a Globo acabou, fui imediatamente contratada pela RedeTV!.
PITY: Muitos participantes se incomodam em ser conhecidos como ex-BBBs. Isso é um problema para você?
ANA: Me incomoda. Não tenho vergonha de dizer que participei do BBB, mas dizer que isso foi a única coisa que fiz na vida, e que eu me resumo a uma ex-BBB, é ridículo! Eu fiz coisas mais legais do que participar do programa. Sou bacharel em Direito, tirei nota 10 com indicação para publicação da minha monografia de experimentação animal e o direito de objeção de consciência, participei de grupo de pesquisa em teoria e filosofia do Direito... Depois que eu entrei no BBB, mudei o foco, fui para a área da comunicação, mas continuo estudando muito. Fiz diversos cursos, no Senac, Escola São Paulo e Escola de Atores do Wolf Maya. Vou tirar agora o DRT de apresentador de TV. Recentemente concluí um curso técnico no Senac direcionado a essa área.
PITY: Qual sua ocupação profissional hoje em dia?
ANA: Virei empresária. Tenho uma loja virtual, a LAX Store, sou apresentadora de TV (estou negociando com uma emissora, mas não posso falar mais nada, pois tem muito olho gordo) e também sou bacharel em Direito, só que não exerço.
PITY: Defina a Ana de antes e a Ana de depois do BBB.
ANA: Continuo sendo a mesma Ana de sempre, mas um pouco mais madura, já que sofri muito depois do Big Brother ao conhecer um lado muito ruim do ser humano.
PITY: Até hoje você possui uma leva de seguidores conhecidos como os "anáticos". Que tribo é essa?
ANA: São os meus fãs. Eu amo eles! Tenho fãs no mundo todo. Eu não tinha a mínima noção disso. Tenho fãs em todos os estados brasileiros, muitos em Portugal, EUA, Japão, entre outros países (a maioria brasileiros que moram fora ou estrangeiros que já moraram no Brasil e continuaram vendo o Big Brother por meio da Globo Internacional).
PITY: Você mora em São Paulo? Com que frequência vai a Floripa?
ANA: Eu me divido entre os dois.
PITY: Por que o BBB deu tão certo no Brasil?
ANA: Porque as pessoas são curiosas. São voyeurs.
PITY: De tudo vivido lá dentro, Ana possui alguma mágoa?
ANA: Não, eu não guardo mágoa de ninguém. É um sentimento tão ruim...
PITY: A Ana é aquela garota mimada que a gente conheceu em 2009?
ANA: Qual o problema de eu ser mimada? Porque eu fui muito amada pelos meus pais? Eu não tenho problema com isso. Sou uma pessoa normal, com defeitos e qualidades. Sou mimada, sim, mas também sou impulsiva, sincera, verdadeira, carinhosa, espontânea...
PITY: Qual o recado que você deixaria para os leitores que estão pensando em se inscrever para a 11a edição?
ANA: Sinceramente, pense mil vezes antes de se inscrever, pois é bem provável que tu vais te decepcionar, já que a gente cria uma expectativa muito grande. Tens que te perguntar se vale a pena tu querer mudar de vida. Se vais ficar rico? Provavelmente não. Se quiseres posar nua, fique tranquila que terão propostas. E se tu fazes tudo pela fama, então te inscreva. Eu não entrei no BBB para ficar famosa, mas, sim, para tentar ganhar um milhão de reais mostrando a pessoa que eu sou. Então, só pense muito antes de fazer isso. Se eu soubesse como seria, eu não teria me inscrito.
Dos seus 55 anos de vida, 31 são dedicados ao Grupo RBS. Paizão de quatro filhos e casado com uma criciumense, o colunista mais lido de Santa Catarina, que perde o amigo, mas não a notícia, cita a importância de nossa cidade em sua caminhada e revela que só deixaria de escrever em troca de um bom prêmio lotérico.
PITY: Um breve currículo.
CACAU: Cláudio de Menezes, nasci em 1955, em Floripa. Comecei com 13 anos de idade como o mais jovem locutor esportivo do Brasil, numa época que o Metropol, time de Criciúma da família Freitas, era nosso maior orgulho. Já tenho 31 anos de RBS. Estou no Jornal do Almoço desde o primeiro dia, cinco de novembro de 1979.
PITY: Nessa briga de diploma e não diploma, Cacau é ou não é um jornalista?
CACAU: Um jornalista sem diploma, mas isso não vale mais nada. Caiu a obrigatoriedade do diploma. Mas não sou muito fissurado em ser reconhecido como jornalista. Cada um me vê como quer. Jornalista, comunicador, colunista, apresentador de tevê, locutor, boêmio, vagabundo, praieiro, sei lá, sou um pouco de cada coisa. Sou Cacau. Isso basta.
PITY: Você comanda a coluna mais lida do Estado. Como lidar com o ego da turminha que faz de tudo para aparecer?
CACAU: Faz parte do show. Todo mundo gosta de aparecer. O colunável e o colunista. Sei lidar com eles. Não tenho nenhum problema com os loucos por coluna. Até gosto. São esses que valorizam o meu trabalho. Mas para aparecer na minha coluna não basta apenas ter a vontade, é preciso fazer por merecer.
PITY: O que não emplaca de jeito algum em sua página?
CACAU: Nada.
PITY: Você passa uma imagem de "nem aí para a opinião alheia". Procede? Que tipo de opinião a seu respeito lhe desconforta?
CACAU: Não gosto, como qualquer pessoa, da crítica injusta, da oposição burra e cega, da inveja, da maldade, da calúnia. O resto a gente tira de letra. Falem mal, mas falem de mim.
PITY: Apesar do Diário ser catarinense, vocês, colunistas, focam suas notícias principalmente na capital. Não seria, de certa forma, um descaso com os leitores de outras cidades?
CACAU: O colunista sou eu, não os leitores. Falo do que me interessa, sem me preocupar com esse tipo de patrulha. Quando a notícia é boa ela não tem casa.
PITY: O que faria você definitivamente desistir/parar de escrever?
CACAU: Um grande prêmio de loteria.
PITY: Defina a RBS em uma palavra.
CACAU: A gente briga, mas a gente se ama. Me deram as melhores oportunidades da minha vida. Gratidão eterna.
PITY: Logo, logo, Cacau vai ser avô. Como recebeu a notícia?
CACAU: Se tu dix?
PITY: Quem paga mais mico na noite de Floripa? As periguetes ou os velhos babões?
CACAU: Não conheço nem elas e nem eles. Paga mico quem fica em casa vendo a turma se divertir na rua.
PITY: Cacau perde o amigo, mas não perde a notícia ou já deixou de publicar muita coisa por respeito aos seus?
CACAU: Perco o amigo. Nunca deixei de publicar nada que quis.
PITY: De olho na juventude, se pudesse, que tribo eliminaria do globo? E por quê?
CACAU: Motoqueiros, roqueiros, boleiros, putas, maconheiros, engenheiros, médicos, magistrados... Cada um tem o seu valor na sociedade.
PITY: Uma referência no colunismo brasileiro.
CACAU: Zózimo Barroso do Amaral, o melhor de todos.
PITY: Como é sua relação com sua esposa e filhos? O fato de ser o colunista "da última página" já trouxe desavenças pessoais?
CACAU: Todo homem já teve ou tem desavenças. Nossa vida é igual a sua. Você nunca teve desavenças? Problemas existem para serem resolvidos. Nessas horas é que se vê quem é grande e quem é pequeno.
PITY: Um lugar que sonha conhecer?
CACAU: Tóquio.
PITY: Em todos esses anos de estrada, são mais amigos ou inimigos no currículo?
CACAU: 90% de amigos e admiradores.
PITY: Uma personalidade que sempre terá espaço em sua coluna?
CACAU: Jesus Cristo.
PITY: O glamour de Jurerê Internacional: realidade ou fantasia?
CACAU: Um pouco de cada coisa. Gosto mais de Jurerê, onde moro, agora, sem os haoles exibicionistas. Mas também curto a loucura do verão. Tem muita mulher. Adoro mulher.
PITY: Compare a Floripa de ontem com a Floripa de hoje.
CACAU: Éramos felizes e sabíamos. Agora, estamos em dúvida.
PITY: Três palavras para substituir o velho "sexo, drogas e rock'n roll"?
CACAU: Pode ser quatro? Manoel, Maria Cláudia, Maria Vitória e Maria Cândida, meus filhos lindos e queridos que eu adoro.
PITY: O que há de pior e de melhor num high society?
CACAU: A falsidade, a fofoca, o deslumbramento, a traição, o excesso de vaidade. O que é bom é a festa. A turma do champanhe bota pra foder...
PITY: Afinal, por que todo mundo vai parar em Floripa?
CACAU: Porque é o melhor lugar do mundo.
PITY: O que Cacau sabe de Criciúma?
CACAU: Quase tudo e quase nada.
PITY: Deixe um recado para os seus leitores de Criciúma.
CACAU: Eu amo vocês e os tenho como minha segunda casa. Meu caso com Criciúma é antigo. A mãe dos meus filhos é criciumense, o Metropol me enchia os olhos, a minha vida passa por Criciúma.
De filha de mãe pobre à esposa de marido rico, ela é uma das mulheres mais notáveis e comentadas do high society de Criciúma. Na maturidade de seus bem vividos 51 anos, Mirza aprendeu a lidar positivamente com as críticas, não se incomoda em ser tachada de socialite e confessa gostar de elogios, mesmo sem nunca ter buscado os chamados holofotes.
PITY: Você já foi professora do Colégio São Bento? Quando parou de lecionar? Conte um pouquinho dessa época.
MIRZA: Foi uma época muito especial da minha vida. Ainda hoje, se me concentrar, sou capaz de lembrar cada rostinho de aluno que passou pelas minhas mãos naquele tempo feliz. Rezo por todos eles sempre. Parei de lecionar no final da década de 80. Ainda hoje, só em tocar no assunto, me comovo e sinto muitas saudades. Só para lembrar: uma vez professora, sempre professora, mesmo distante da escola. Afinal, é a minha profissão, mesmo não exercendo o ofício.
PITY: Como é o seu dia a dia?
MIRZA: Normal. Sou esposa, mãe, avó, filha e faço tudo que as outras fazem. Me alegro com as vitórias, sofro com as derrotas de cada familiar e estou sempre a postos caso alguém precise de mim. Para eles, sou sempre superdisponível. Também jogo meu carteadinho toda semana, vou ao salão de beleza, médicos, ginástica, leio muito e procuro me espiritualizar cada vez mais, numa busca constante de chegar cada vez mais perto de Deus.
PITY: Você é uma mulher bonita. Quais os cuidados que toma para manter sua beleza?
MIRZA: Puxa, muito obrigada pelo elogio. Não vou ser hipócrita e dizer que nunca tinha ouvido isso, mas é sempre ótimo quando alguém fala. Meus cuidados são simples. Vou regularmente ao ginecologista doutor Ribeiro, à dermatologista doutora Ângela Lapoli Serra Braga, ao nosso médico de família doutor Celso Menezes e ainda conto com o apoio da equipe Salete Cabeleireira, faço ginástica duas vezes por semana com a minha personal trainer Adri e drenagem linfática também duas vezes por semana com a minha fisioterapeuta Thaís Bragato. Minha maior inimiga é a balança, tenho a maior facilidade para ganhar peso. Então, só na fome, minha doce Pity. Acho que é só. Sem esquecer o mais importante: “mente sana, corpo são”.
PITY: Você compra muito em Criciúma? Na sua opinião, qual a melhor butique da cidade?
MIRZA: Quer me complicar, garota? (risos) Sem brincadeira, estamos muito bem servidos de butiques na cidade. Por isso, mesmo viajando e comprando também fora, eu compro muito em Criciúma.
PITY: Está lendo alguma obra? Que tipo de leitura você consome?
MIRZA: Consumo todo tipo de literatura. Até bula de remédio serve na falta de outra coisa. No momento, estou lendo “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón (autor de “O Jogo do Anjo”, que já li, adorei e recomendo).
PITY: Em sua identidade como mulher, o que você encontra na Andrea, que não encontra na Márcia, e o que encontra na Márcia, mas que não encontra na Andrea?
MIRZA: Quando eu olho para as duas mulheres incríveis que eu formei, não entro em mim de tanto orgulho. Duas batalhadoras, duas guerreiras de luz, tão diferentes e tão semelhantes ao mesmo tempo. A Andrea, minha filha mais velha, é uma pessoa extraordinária. Frágil na sua imensa fortaleza, já passou por tanta coisa nesta vida que só quem a conhece verdadeiramente é capaz de mensurar. É uma mãe exemplar, uma profissional rara, cinéfila por natureza e uma leitora voraz. Tem uma capacidade de se comunicar fantástica e está sempre cercada de amigas. Quanto à Marcinha, o diminutivo já fala por si. Para mim, ela será sempre a Marcinha, a caçulinha. Mas não se enganem! Ela também é uma rocha, generosa como raros, estudiosa, mãe maravilhosa, companheira e amiga. Dedicada ao seu trabalho e mais doce do que o açúcar. Fica um pouco confuso eu nomear as diferenças entre as duas enquanto mulheres. Talvez pelo fato da Andrea ter tido muito mais obstáculos para transpor nesta vida, ainda tão curta, ela tenha ficado mais calejada que a Marcinha e vice-versa. Mas ambas são adoráveis e excelentes companhias.
PITY: Recentemente, você ganhou da Márcia mais uma princesinha, somando quatro netos. Dizem que amor de avó é diferente de amor de mãe. Você concorda?
MIRZA: Concordo. Só discordo quando dizem que a gente ama mais os netos do que ama os filhos. Nada, absolutamente nada neste mundo, amamos mais do que os filhos. A grande magia dos netos é que a gente os ama como se fossem nossos e eles não são. Considero o amor de avó um amor mais sábio. Nós, as avós, já sabemos ser mães. Esta é a grande diferença. Só que, infelizmente, não podemos aplicar a nossa sabedoria. Nossas filhas, em primeiro lugar, não permitem. E, em segundo, estão certas. Para que o ciclo da vida se cumpra, é necessário que elas aprendam errando, como nós aprendemos. E depois (risos) não tenham nada para fazer com este aprendizado. Como nós também não temos. Mas nada é mais sublime neste mundo do que ser avó.
PITY: Mirza Castro é presença quase que diária nas editorias sociais da cidade. Você gosta de aparecer?
MIRZA: Não, eu não gosto de aparecer. Nunca busquei holofotes, aconteceu tudo naturalmente. Pra falar a verdade, nem percebi o que se passava ao meu redor. Mas não posso negar que gosto de ser notada, elogiada, comentada. E quem disser que não gosta, vai me deixar muito desconfiada da sua sinceridade.
PITY: Como você vê a mídia local?
MIRZA: A mídia local poderia ser bem melhor, não fosse pela intromissão de quem pensa que sabe fazer e acaba trocando os pés pelas mãos. Mas, graças a Deus, temos grandes colunistas em Criciúma. E se algum jornal não tem grandes colunistas é simples: suspendemos nossa assinatura. Afinal, vivemos numa democracia. E vida longa aos que sabem escrever com ética e com respeito!
PITY: Assim como toda pessoa pública, você também é alvo de críticas. Você lida bem com isso?
MIRZA: Muito bem, graças a Deus! Às vezes, invadem mesmo a nossa privacidade. Isso já me incomodou, hoje não mais. Quanto às críticas, filtro tudo, absorvo o que pode me acrescentar como pessoa e quanto ao que não me serve, sempre rende alguma coisa, nem que sejam boas risadas da cara do bobo que as proferiu.
PITY: Lhe desconforta ser chamada de socialite?
MIRZA: Nem um pouco. Quem vive em coluna social não é socialite?
PITY: Qual foi sua maior vitória?
MIRZA: Ter nascido.
PITY: O que o dinheiro não pode comprar?
MIRZA: Paz de espírito. Não tem nada melhor que deitar no travesseiro à noite e dormir em paz.
PITY: Sua maior loucura financeira?
MIRZA: Eu não cometo loucuras financeiras. Meu marido as comete pra mim. Foram tantas...
PITY: Poderia citar alguma?
MIRZA: Ah, minhas bolsas caríssimas, meu carro, que é supercaro, minhas joias... É ele quem banca. Se eu disser que algo é lindo, ele vai correndo comprar.
PITY: A melhor viagem?
MIRZA: Ao Egito. Não tem nada mais mágico nem mais lindo que a cidade do Cairo. É impressionante!
PITY: Dizem que atrás de todo rico, sempre existem pessoas bajulando. Isso acontece com você?
MIRZA: Prefiro acreditar que não. Eu amo tanto os meus amigos. Eles são a família que eu escolhi pra mim.
PITY: Quem são seus verdadeiros amigos?
MIRZA: Tenho tantos... Um mais bacana que o outro. Sou feliz ao lado deles.
PITY: Você realiza algum trabalho social, colaborando com pessoas mais necessitadas?
MIRZA: Reza a lenda que o que a mão direita dá, nem a esquerda deve ficar sabendo, mas todos sabem que eu tento ser generosa e ajudo bastante. Sempre acho que deveria ter ajudado mais, mas isso é coisa minha. Deixo meu marido quase louco.
PITY: Pra quem você tira o chapéu em Criciúma? E pra quem não tira?
MIRZA: Tiro o chapéu pra muita gente. Tem muita gente boa nesta terra. Hoje, particularmente, quero tirá-lo pra você, uma garota adorável, sensível, bem-educada e que só faz o bem. Não tiro o chapéu para a hipocrisia e para a injustiça. E tem muita gente em Criciúma que pratica estes adjetivos com regularidade quase constante. Falando em chapéu, este serviu para você, leitor?
PITY: O que lhe faz chorar?
MIRZA: Injustiça! Injustiça! Injustiça!
PITY: Como você se vê daqui a 20 anos?
MIRZA: Mais espiritualizada, mais evoluída, melhor!
PITY: Se amanhã você acordasse pobre, qual a melhor lembrança que teria de tudo que o dinheiro lhe oportuniza hoje?
MIRZA: Se amanhã eu acordasse pobre, eu me sentiria viajando no tempo, de volta ao passado. Eu vim de baixo, sou filha de professora primária e viúva. O dinheiro me ajuda a comprar muita coisa, mas não é fundamental. Eu não o tinha e era feliz. A melhor lembrança que eu levaria dele seria, sem qualquer dúvida, as bocas que ele me permitiu alimentar, os corpos que ele me permitiu aquecer no inverno, a saúde que ele me permitiu devolver a enfermos. Sem nenhuma demagogia, quem me conhece verdadeiramente sabe que é verdade.
Natural de Brasília (DF), Antônio Márcio Campos Neves está em Criciúma desde dezembro à frente da Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança e ao Adolescente. Com apenas 30 anos de idade, o jovem delegado da Polícia Civil quase foi padre, cuidou da disciplina de traficantes como Fernandinho Beira-Mar e confessa sair do sério quando lhe faltam com respeito.
PITY: Antes de mais nada: você quase se tornou padre! Que lance foi esse e como surgiu o despertar pelo Direito?
MÁRCIO: Entrei para a faculdade de Direito com 21 anos, ao mesmo tempo em que me engajei a uma comunidade ligada à Renovação Carismática Católica, chamada Comunidade São Paulo Apóstolo. Lá, promovíamos palestras, retiros, encontros com jovens... Fiz vários cursos e estudei Teologia dentro desse grupo durante quatro anos. Nesse período vinha à tona a questão de se tornar padre, uma decisão muito difícil, que gera um tremendo conflito interno, pois é necessária uma renúncia muito grande (mulheres, vida social, etc). Foi difícil, porém, embora muitas pessoas (às vezes até eu mesmo) me cobrassem, optei não ir para o seminário. Prestei concurso federal e fui aprovado. Após seis meses fui nomeado e lotado em Cascavel, no Paraná. Saí do grupo e me afastei dos movimentos religiosos. Por um lado foi bom, pois era o início da minha trajetória profissional. Meus pais ficaram felizes e apoiaram minha ida para Cascavel. Por outro, sinto saudades da convivência saudável, cercada de solidariedade, que pude vivenciar dentro da comunidade.
PITY: Com tantas outras cidades no Estado para atuar, por que escolheu Criciúma?
MÁRCIO: Em razão da estrutura da cidade e, principalmente, da Polícia Civil daqui, que é considerada a melhor de Santa Catarina. Estou no Estado desde agosto de 2008, quando iniciei na Academia de Polícia em Canasvieiras, Florianópolis. Com o término do curso, as vagas foram abertas e, quando avistei a Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança e ao Adolescente em Criciúma, não pensei duas vezes e me transferi pra cá em dezembro passado.
PITY: Criciúma vive um drama, atualmente, com o envolvimento de menores no tráfico e uso do crack. Falando em nome da polícia, o que vocês estão fazendo no combate a este grave problema?
MÁRCIO: O combate é intenso e 24 horas por dia. A Central de Polícia de Criciúma tem a melhor equipe de investigação do Estado de Santa Catarina e vem combatendo esse problema todos os dias. Para você ter uma ideia, 70% ou mais dos presos do Santa Augusta estão lá devido ao tráfico. Diariamente a Central está prendendo traficantes. O efetivo não é o ideal para uma cidade do porte de Criciúma, mas a Polícia Civil está muito bem estruturada. Quando identificam menores, eles são encaminhados para mim. São crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que participam intensivamente do mercado consumidor de drogas pesadas (crack e cocaína) de Criciúma, que é considerado o maior do Estado. O problema é a falta de tratamento especializado. Apenas uma minoria da população tem condições financeiras de pagar R$ 300,00 diários em uma clínica de reabilitação contra o crack, droga de alto poder destrutivo. Sem tratamento, o dependente químico vai cometer crimes para sustentar o vício. Ele vai entrar na sua loja para roubar. Vai lhe assaltar quando você estiver entrando no carro. Ainda mais hoje em dia, que está difícil assaltar um automóvel na surdina. Eles estão usando e abusando da violência para conseguir o que querem.
PITY: Como está a relação da polícia com os gestores públicos locais? Eles têm colaborado para a segurança da cidade?
MÁRCIO: Apesar do município não ter uma contribuição voltada para a segurança pública, percebemos que órgãos como Assistência Social, Secretaria de Saúde e Conselho Tutelar têm tentado contribuir conosco para a diminuição da criminalidade. Isso é fantástico.
PITY: As denúncias em uma Delegacia da Mulher devem ser graves, porém também tendem haver reclamações que fogem de suas responsabilidades. A partir de qual delas você e sua equipe podem tomar alguma providência?
MÁRCIO: A polícia atua quando há crime ou suspeita de crime. Infelizmente, hoje, 40% dos casos que eu atendo na delegacia não são casos de polícia, mas, sim, de instituições sociais. Porém, com a ineficácia do Estado em relação a isso, estes casos acabam batendo à porta da polícia.
PITY: E as denúncias sem procedência, mentirosas?MÁRCIO: Quem vai na polícia mentir comete um crime grave, chamado denunciação caluniosa, que nada tem a ver com o crime de calúnia. São dois crimes diferentes. A pena vai de dois a oito anos de reclusão. Esses dias, uma menina de 11 anos inventou que foi abusada pelo padrasto. Mobilizamos toda uma estrutura, conseguimos IML, consulta particular para atestar doenças sexualmente transmissíveis e deu negativo. Fomos descobrir, ela queria separar a mãe do padrasto. É bem complicado. Muitas mulheres se batem e se arranham com as próprias unhas e chegam na delegacia dizendo que apanharam. E nos casos de crimes domésticos é a palavra de um contra a do outro. A Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança e ao Adolescente é a mais complicada. É lavação de roupa suja direto.
PITY: Quais os boletins de ocorrência mais frequentes nessa delegacia?
MÁRCIO: Ameaça e lesão corporal simples. Segundo dados estatísticos, 90% dos casos de abuso sexual acontecem dentro de casa.
PITY: Existem muitos casos de mulheres que apanham, registram boletim de ocorrência e, dias depois, aparecem na delegacia para retirar a queixa?
MÁRCIO: Isso é o que mais existe. Ainda aparecem de mãos dadas com o agressor, dizendo que fizeram as pazes. É uma pena, pois 99,9% das mulheres vítimas de violência que desistem da denúncia, voltarão a ser vítimas de outro tipo de agressão. Isso é fato. Fora aquelas que temem o parceiro e não o denunciam. A maioria dos casos não é denunciada por medo.
PITY: Dados também revelam que a cada quatro minutos uma mulher é espancada por seu companheiro no Brasil. Por aqui, pelo visto, não é muito diferente...
MÁRCIO: Não. Esse tipo de violência não escolhe classe social. Eu atendo desde os altos empresários dessa cidade até o cidadão mais comum.
PITY: Hoje em dia fala-se muito na lei Maria da Penha. A partir de que momento ela pode ser aplicada?
MÁRCIO: A lei número 11.340/06, conhecida popularmente como Lei Maria da Penha Maia, surgiu de uma necessidade e de uma realidade existente em nosso país: a violência praticada contra a mulher em ambiente familiar (ou "doméstico", como diz a lei). Para que haja a incidência dos institutos ou das medidas protecionistas de urgência criadas, não é preciso muita coisa. Basta que a vítima seja mulher e que o autor (homem ou mulher) tenha uma relação de proximidade com a vítima. É preciso que a violência seja praticada no âmbito da unidade doméstica, sendo esta compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, no âmbito da família (legal ou informalmente constituída) ou em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida. E veja: tudo isso independentemente de coabitação entre os envolvidos. Por isso, até os namorados podem cair nas garras da Maria da Penha.
PITY: É sabido que, quando chegam ao presídio, os estupradores são hostilizados pelos próprios presos. Essa tradição no mundo do crime permanece?
MÁRCIO: Permanece e se existe um código penal que realmente é cumprido é o código dos presos. Estupradores têm alas separadas e a certeza da punição destes elementos dentro de um presídio é grande. Tanto que a polícia é incapaz de controlar uma rebelião desse tipo. Muitas vezes, quando chegamos ao local para evitar qualquer tragédia, já é tarde demais. A ira dos presos contra os estupradores é fatal. Eles penduram cabeças, penetram cabos de vassouras... A punição é cruel.
PITY: Já sofreu alguma ameaça devido ao seu ofício?
MÁRCIO: Ainda não. Já sofri ameaças verbais quando era agente federal.
PITY: Você já cuidou de traficantes de alta periculosidade, como Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco e Marcinho VP. Onde e como foi isso?
MÁRCIO: Fui servidor federal durante dois anos e dois meses. Assim que aprovado no concurso, fui lotado na primeira Penitenciária Federal construída no Brasil, mais especificamente em Catanduvas, extremo oeste do Paraná. Nesse período, após um ano trabalhando como plantonista, fui nomeado presidente do Conselho Disciplinar e tive que cuidar da disciplina dos presos, entre eles, Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco, Maurício Norambuena, Marcinho VP e Isaías do Borel. Presidi processo administrativo disciplinar instaurado contra alguns dos presos mais famosos do país. Não tive a oportunidade de processar disciplinarmente o Luiz Fernando (Beira-Mar), pois no período em que ele esteve lá, sempre manteve bom comportamento. Foi uma experiência ímpar na minha vida, tanto profissional como pessoalmente. O que somei em termos de conhecimento em segurança pública foi coisa que livro nenhum ensina. Além do mais, fiz grandes amigos. Alguns passaram em outros concursos e foram embora. Outros ainda trabalham lá e mantenho contato quase todos os dias. Tudo o que acontece na Penitenciária Federal é resultado de um olhar diferente e inovador sob o sistema penitenciário brasileiro. É totalmente diferente do que estamos acostumados a ver em nosso país e tem dado certo. Os agentes federais são altamente preparados para lidarem com esse tipo de preso. Ali, eu pude ver que o sistema prisional no Brasil tem solução, embora o custo de tudo isso seja altíssimo. Gostaria muito de ver o Estado de Santa Catarina trilhar esse caminho e implantar um sistema rigoroso e seguro como fez o Governo Federal. Quem sabe isso um dia aconteça. Modelo nós já temos.
PITY: Você vive em meio à juventude e é ciente que a maconha é uma das drogas mais consumidas neste meio. No papel de delegado, como você lida com isso?
MÁRCIO: Quando eu vejo, eu tenho que autuar. É meu dever de ofício. O filme Tropa de Elite mostra uma realidade vista também aqui em Criciúma que é uma hipocrisia tremenda. Trata-se daquela cena do playboy pegando a maconha na favela e depois pedindo segurança pública em uma passeata. Esses caras são uns incoerentes, pois quando têm conhecimento de um assassinato por causa de maconha, saem exigindo segurança pública, porém esquecem que são eles quem sustentam esse tráfico. Várias vítimas são feitas até chegar nesse baseado que eles acham ser inofensivo.
PITY: Qual a primeira reação de um pai que chega na delegacia quando o filho é autuado com maconha?
MÁRCIO: Muitos pais se espantam, não sabem que o filho é usuário ou dependente. Muitos alegam que o filho está andando em más companhias, sem saber que a má companhia é o próprio filho.
PITY: Distante de querer fazer apologia às drogas, porém não soa demagogia proibirem a liberação da maconha e maquiarem o perigo que o consumo do álcool gera à sociedade e a inúmeras famílias?
MÁRCIO: O problema é que a maconha é a porta de entrada para as drogas mais pesadas, pois vai chegar um ponto em que ela não irá mais satisfazer. Mas penso que o álcool deveria ter uma restrição maior tendo em vista suas várias consequências.
PITY: Já experimentou drogas?
MÁRCIO: Nunca. Drogas ilícitas nunca. Quando bebo é socialmente.
PITY: Já autuou algum colega em flagrante?
MÁRCIO: Não e espero nunca precisar fazer isso.
PITY: A divulgação do perigo que assola Criciúma, feita através da imprensa, colabora ou atrapalha o trabalho da polícia?
MÁRCIO: De certa forma atrapalha porque, às vezes, a imprensa acaba passando para a sociedade uma insegurança que, graças a Deus, não existe no Estado de Santa Catarina. Comparado ao resto do país, Santa Catarina é o Estado mais seguro de todos. Porém, por outro lado, a imprensa ajuda, pois quando os fatos são notórios, a população acaba colaborando com as investigações. E nós vivemos de informações. Quanto mais, melhor.
PITY: Nos dias de hoje, o preconceito (raça, sexualidade, religião...), de um modo geral, pode resultar em cadeia. Existem casos desse tipo na cidade?
MÁRCIO: Existem. Principalmente casos de racismo e injúria racial. No racismo você ofende um grupo de um modo geral. A injúria racial acontece quando a ofensa é destinada a uma pessoa específica. Isso dá cadeia, sim.
PITY: É notório que você é uma pessoa calma. O que lhe faz perder a linha?
MÁRCIO: Falta de educação. Existem muitas pessoas que chegam na delegacia exigindo certas coisas que não são de atribuição da polícia. Exigem um serviço sem saber pedir.
PITY: Quem é pior, o estuprador ou o traficante?
MÁRCIO: Ambos, porém o estuprador causa um dano apenas a uma pessoa (vítima) e sua família. Já o traficante é mais danoso. Ele atinge a população em geral.
PITY: E qual traficante é mais fácil de pegar, o da favela ou aquele graúdo engravatado?
MÁRCIO: O da favela, pois esse geralmente age com mais violência contra as pessoas e os crimes cometidos com violência revoltam a sociedade, que pede a autuação do Estado. No caso dos traficantes “de elite”, tudo é feito na calada. O trabalho de investigação é maior. A polícia não pode sujar as mãos à toa.
PITY: Como é a relação de vocês, delegados?
MÁRCIO: Excelente! Somos em 13, todos profissionais altamente gabaritados.
PITY: Como você enxerga Criciúma daqui a 10 anos?
MÁRCIO: Uma cidade que está crescendo muito, que terá quase o dobro do tamanho atual, um trânsito caótico e, consequentemente e infelizmente, um aumento significativo da criminalidade.
PITY: Se pudesse fazer um apelo às nossas autoridades, o que diria?
MÁRCIO: Que investissem mais em educação. O Ministério da Educação e a Secretaria da Educação são os dois órgãos mais importantes de um país. Já dizia o teólogo e sociólogo Rubem Alves: “Se você pega um jardim e não coloca nenhum jardineiro nele, ele vai virar um matagal. Porém, se você pega um terreno sem nada e ali coloca um jardineiro, ele se transformará em um lindo jardim”. É a mesma coisa com um país. Ele pode ser o mais desenvolvido do mundo, mas se não tiver pessoas capacitadas para comandá-lo, irá se autodestruir.
Exemplo de dedicação e disciplina, Anne tornou-se referência na cidade e no país quando o assunto é malhação. Mesmo iniciando tarde na maromba, a atleta revela que a paixão pelo halterofilismo a acompanha desde pequena. E mais: não liga para o preconceito das pessoas, mas também não atura os engraçadinhos que lhe abordam nas baladas.
PITY: De uns anos pra cá, a Anne Freitas conhecida por sua estatura mignon, que se parecia uma boneca, se transformou em um mulherão malhado, dando inveja a muitos homens que sonham em ter um corpo definido. Como começou essa sua transformação?
ANNE: Sempre tive uma grande admiração pela estética que os músculos nos proporcionam. Minha mãe sempre fala que em uma de nossas viagens, ainda quando criança, enquanto esperávamos no aeroporto para embarcar no avião eu entrei numa banca de jornal e pedi a ela que comprasse uma revista sobre fisiculturismo, que fiquei parada, olhando atentamente. Anos mais tarde lá estava eu, treinando para tentar chegar perto daqueles exemplos das revistas da qual eu folheava. Comecei a fazer musculação relativamente tarde, mas rapidamente meu corpo mudou com a disciplina e dedicação que sempre tive. Quando vemos a diferença e a melhora que o exercício traz ao corpo e à mente, não queremos mais voltar atrás e, sim, progredir sempre.
PITY: O fato de seu corpo ser impecável traz à tona a disciplina. Qual sua rotina diária?
ANNE: Com certeza disciplina é tudo, sem ela não conseguimos ver a evolução das coisas. Faço exercícios constantemente e sigo uma dieta fácil de executar o ano todo.
PITY: Você malha todos os dias?
ANNE: Procuro malhar pelo menos quatro vezes na semana, sendo que faço dois treinos de membros posteriores e os restantes membros superiores. Esses treinos duram em média uma hora.
PITY: O halterofilismo ainda sofre muito preconceito. Você, sem dúvidas, também sofreu (ou ainda sofre), principalmente pelo fato de ser mulher. É difícil lidar com os olhares e comentários das pessoas?
ANNE: Eu sou uma pessoa muito segura e sei muito bem o que quero e onde quero chegar. No fisiculturismo não existe meio termo. Quem gosta, realmente ama tudo que esse meio pode proporcionar. Recebo muitos elogios, mas também ouço muitas coisas engraçadas. Infelizmente, no Brasil, as pessoas ainda não valorizam o fisiculturismo. Nos Estados Unidos, por exemplo, esses atletas conseguem patrocínios, as premiações nos campeonatos são boas, há muito incentivo e divulgação, os atletas são realmente tratados como celebridades.
PITY: Não dá para ser uma atleta de sucesso no Brasil?
ANNE: Um atleta de sucesso é um atleta realizado em todos os sentidos. No Brasil é mais uma realização pessoal, um degrau para se profissionalizar.
PITY: Você trouxe para Santa Catarina, e consequentemente para Criciúma, um título de peso na modalidade em questão. Fale um pouquinho sobre ele.
ANNE: Essa vitória foi realmente uma surpresa. Estrear vencendo um campeonato brasileiro, onde se encontram as melhores atletas de cada Estado, foi algo maravilhoso, uma sensação indescritível, parecia um sonho. Essa conquista eu devo a Jesus, à minha família e ao meu talentoso treinador Ricardo Pannain. Espero colecionar muitos outros títulos no que depender de mim.
PITY: Dizem que a restrita dieta antecedente a um campeonato é tarefa para guerreiros. O que um atleta pode e deve comer neste período?
ANNE: Certamente não é para qualquer pessoa, é algo que exige uma mente muito equilibrada, aliada com muita determinação para atravessar por essa fase até o dia da competição. Toda essa preparação começa em média três meses antes do campeonato. É algo gradativo, a dieta é rica em proteína (ex: ovo, frango, carne...) e carboidrato (ex: arroz, aveia, batata...) e vai diminuindo ao longo desse período.
PITY: É mais fácil cuidar do corpo ou da mente?
ANNE: Ambos estão ligados. Se a mente estiver saudável, consequentemente o corpo também estará.
PITY: O consumo de anabolizantes no seu meio esportivo é uma constante?
ANNE: Os anabolizantes existem e todo mundo sabe, mas hoje em dia existem muitos suplementos que substituem naturalmente essas substâncias. Acho que essas pessoas que fazem uso de anabolizantes são pessoas desinformadas e que querem um resultado imediato. Elas não querem passar por um programa que requer disciplina e, portanto, um resultado a longo prazo.
PITY: Você já usou as famosas e polêmicas "bombas" para ficar definida?
ANNE: Faço uso de muita suplementação, substâncias que estimulam os hormônios que produzimos naturalmente em nosso corpo. Minha dieta é calculada exatamente para não perder massa magra, aumentar ou diminuir quando for necessário. As pessoas quando falam de músculos, principalmente as mulheres que dizem "eu tenho medo de ficar musculosa", não têm noção de como é difícil ganhar massa magra e, pior ainda, mantê-la. Outro motivo pelo qual não poderia fazer uso é pelo fato de que existe um controle muito rigoroso de antidoping nos campeonatos. Não valeria a pena correr o risco.
PITY: Você se arrepende de algo realizado durante essa caminhada?
ANNE: Claro que não! Me sinto muito melhor agora do que anos atrás. Faria absolutamente tudo de novo. Só me arrependo de não ter me envolvido em competições antes. No início, eu resisti porque achava que não me traria nenhum retorno, mas hoje eu me sinto muito motivada para chegar num nível mais avançado.
PITY: A Anne em uma balada. Os homens temem chegar perto dela?
ANNE: Acho que é mais curiosidade do que qualquer outra coisa. Existem pessoas muito legais, que sabem chegar para perguntar o que têm vontade, mas outras que não têm noção e fazem perguntas tipo: "Você malha? Quanto você tem de braço?". Isso me deixa muito sem paciência.
PITY: Atualmente, quais são suas ocupações profissionais/pessoais?
ANNE: Este ano estou mais no Rio de Janeiro do que em Santa Catarina, por vários motivos. É nas grandes capitais que tudo acontece, que as oportunidades aparecem, temos que estar no lugar certo, na hora certa. Estou fazendo algumas matérias para revistas de musculação e, para quem quiser conferir, neste mês de março e o próximo estarei aparecendo na Muscle In Form, uma das revistas mais conceituadas de musculação no Brasil. Pretendo alcançar mais algumas vitórias em 2009, começando pelo campeonato brasileiro, novamente em setembro, em seguida o sul-americano, também em setembro, e rumo ao mundial. Para que isso se torne realidade, estou à procura de patrocinadores que me apóiem nessa ideia para que eu consiga mais uma vez um excelente resultado.
PITY: Qual o seu recado aos homens e mulheres que lhe admiram e gostariam de alcançar uma forma física como a sua?
ANNE: Gostaria de agradecer o apoio e elogios que recebo constantemente, desde pessoas que são apenas admiradoras do bodybuilding até os próprios atletas que me incentivam e, especialmente, ao meu treinador, que deposita muita confiança em mim. Dizer que para alcançar a forma física desejada é preciso ser constante, determinado, disciplinado. É um processo a longo prazo, para ganhar maturidade muscular, qualidade aliada a volume. Tudo é possível desde que a pessoa realmente saiba aonde quer chegar.
PITY: A diferença entre a Anne de ontem e a Anne de hoje?
ANNE: Uma Anne muito mais consciente, madura, com metas definidas. Uma pessoa disposta a dar o máximo de si para alcançar suas vitórias.
Ela abandonou o Direito e foi se especializar em tatuagem. Alessandra ama o que faz, acredita ser a intolerância o grande mal da humanidade e aconselha seus clientes a não tatuarem o nome da pessoa amada na pele.
PITY: Para muitos pode parecer loucura, mas você é formada em Direito e largou tudo para se tornar tatuadora. Como foi esse movimento?
ALESSANDRA: Quando meus clientes me perguntam como é que eu fui parar na tatuagem, eu sempre brinco ao contrário: não sei como é que eu fui parar no Direito [risos], porque a tatuagem tem muito mais a ver comigo do que o Direito em si. A escolha do Direito chegou com a época do vestibular, quando fiquei meio perdida e não tinha certeza do caminho que queria seguir. E eu sempre tive uma paixão enorme pela arte. Adorei a faculdade, mas assim que eu concluí [isso em 1997] nem engrenei no trabalho. Ter entrado na tatuagem foi justamente por esse meu amor pela arte, pelo desenho, por toda manifestação artística. A tatuagem me viabilizou trabalhar com a arte da maneira que eu queria, que era através do desenho.
PITY: Aí você foi atrás disso. Se especializou, fez cursos? Você era tatuada na época?
ALESSANDRA: Já, eu já tinha uma tatuagem que havia feito em Porto Alegre. E o curso foi uma coisa meio estranha porque quando eu comprava as revistas para poder me informar onde existiam esses cursos, observava que eles sempre aconteciam em São Paulo, em datas muitos ruins. Eu teria que ficar muito tempo lá. Então, conversei com o Japa, um grande amigo meu que agora está no Japão. Perguntei se ele não me daria um curso mais técnico, de como aprender a usar a máquina, como seria o esquema das agulhas, que tintas deveriam ser usadas... Ele me ensinou e, logo depois que a obra do prédio ficou pronta, abri o estúdio e faz oito anos que não parei mais.
PITY: Para a pessoa tatuar, ela tem que saber desenhar ou não necessariamente?
ALESSANDRA: Tem. Aprender a usar o equipamento em si, qualquer pessoa pode aprender. O que dificulta, no caso, a tatuagem, é você saber desenho, entender de desenho, entender o esquema das cores, como usá-las, as técnicas do desenho em si.
PITY: Quantas tatuagens você tem?
ALESSANDRA: Bom, eu conto a do braço como uma. Eu diria que tenho três. No braço, que é uma composição de uma máscara, umas borboletas, umas rosas e uma carpa, no tornozelo tenho umas estrelas que estão cobrindo uma rosa, que foi a minha primeira tattoo, e tenho uma na nuca, que é um pássaro e a minha inicial.
PITY: Infelizmente, a tatuagem ainda sofre um preconceito muito grande, principalmente vindo de gerações mais velhas. Como você lida com isso?
ALESSANDRA: Eu acho que o preconceito sempre vai existir. A base disso é a intolerância, que é o grande mal do mundo. Para mim, os grandes desastres sociais acontecem por causa da intolerância. A tattoo teve duas ramificações, uma boa e uma ruim. Eu diria que a ramificação boa é quando a pessoa usa a tatuagem como um adereço, um manifesto, uma maneira de se expressar. E o lado ruim que eu vejo é aquela tatuagem que foi usada para marcar escravo, prisioneiros nos campos de concentração e para marcar a sentença dos gladiadores, que eram outros homens usando a tattoo como uma punição.
PITY: Como é para você saber que vai deixar a marca do seu trabalho para sempre no corpo de infinitas pessoas que lhe procuram e passam pelo seu estúdio?
ALESSANDRA: É uma questão bem delicada. O Rodrigo, meu marido, costuma me perguntar isso e eu acho difícil de responder. Por um lado, vejo toda a minha responsabilidade em passar esse desenho para a pessoa e tentar entrar no espírito de por que ela está fazendo aquilo. De quando for uma homenagem, respeitar essa homenagem. De quando for uma curtição, curtir junto. E de quando for simplesmente um adereço de beleza, poder dar uma opinião puramente estética, não tão sensibilizada. Mas por outro lado, tento não influenciar muito, pelo fato de ela ser muito pessoal.
PITY: Qual foi a tatuagem que lhe deu mais prazer em fazer?
ALESSANDRA: Olha, tiveram algumas. Eu seria até injusta em dizer uma. Mas me emociono muito, por exemplo, como já aconteceu, de uma pessoa vencer um câncer e sempre ter pensado em fazer uma tatuagem, mas nunca ter feito. E depois de ter vencido a doença e visto como o miolo da vida é tênue, ela chega aqui e comemora, pois quando estava em tratamento prometeu que a primeira coisa que faria assim que melhorasse seria uma tatuagem, bem bonita e bem colorida. E me emociona muito também as avós que vêm fazer tatuagem para homenagear os netos. São duas gerações culturalmente tão separadas e dessa maneira tão próximas. Acho muito legal!
PITY: Teve alguém que já desistiu na hora "H"? Qual foi o caso mais inusitado que já aconteceu com você?
ALESSANDRA: Por incrível que pareça, nesses oito anos só uma pessoa desistiu. Foi um rapaz. Estava tudo certo, o desenho já estava escolhido e tudo. Engraçado é que na hora que ele veio escolher o desenho, se mostrou bem seguro. Só que no dia que ele chegou, nem entrou na sala de tatuar. Parou no balcão e, em quinze minutos, começou a ficar estranho. Olhou bem sério para mim e disse: "Você me desculpa, mas eu não quero mais".
PITY: Além da técnica, o seu trabalho exige muita inspiração?
ALESSANDRA: Cada desenho exige uma técnica diferente e até uma inspiração. Muitas vezes, o cliente diz: "Eu quero mais ou menos isso aqui e você desenvolve o resto do desenho para mim". Em outros casos, vendo o desenho que a pessoa escolhe já me vem uma inspiração instantânea de conseguir imaginar como é que ele ficaria pronto.
PITY: Que tipo de desenhos as pessoas mais procuram?
ALESSANDRA: As mulheres têm uma preferência bem grande por tatuagens bem delicadas, pequenas, coloridas e gostam muito de homenagear os filhos e as pessoas que amam. Os homens já gostam dos desenhos maiores, nem sempre coloridos, e também gostam muito de tatuagens no estilo oriental e as que tenham animais ou tribais.
PITY: E os seus filhos? Como você explica seu trabalho para eles?
ALESSANDRA: Eles curtem muito o estúdio, pois a Luiza tem 12 anos e o Pedro 10, então, eles cresceram praticamente aqui dentro. Há um tempo, eles nem falavam nisso, mas hoje eles dizem que quando forem maiores de 18 terão uma tattoo. Eles curtem vir aqui, desenhar, botar na pasta e de vez em quando perguntam: "Alguém fez a tatuagem com o meu desenho?".
PITY: O preço de uma tatuagem varia em quanto?
ALESSANDRA: Depende do tamanho. Temos por base um preço mínimo que seria de R$ 100,00 para as tatuagens pequenas. O preço varia conforme o tamanho do desenho e a quantidade de detalhes que ele tem.
PITY: Quem um dia você gostaria de tatuar?
ALESSANDRA: Meus pais.
PITY: E quem tatua o nome da pessoa amada na pele? O que você acha disso?
ALESSANDRA: Acho uma decisão difícil. É bem esse tipo de tatuagem que pode lá na frente acabar lhe gerando algum problema. Eu sempre aconselho meus clientes a evitar essas tatuagens. Brinco e digo que é bom deixar isso tatuado no coração.
PITY: Manda um recadinho para quem tem vontade de se tatuar, mas ainda sente algum medo.
ALESSANDRA: Enquanto se tem medo de fazer a tatuagem, seja o medo de se arrepender ou o medo da dor, acho que não deve ser feita. Para fazer a tattoo, você deve estar em um momento muito legal e ter certeza de que quer fazer. Então, nada melhor do que se sentir bem tranquilo e bem confiante para não ter arrependimento depois.
JOGO RÁPIDO:
Um amor: Minha família.
Qualidade: Determinação.
Defeito: Autocrítica.
Hobby: Desenho.
Homem: Rodrigo.
Mulher: Minha mãe.
Prato: Paella.
Livro: "Breve história de quase tudo", de Bill Bryson.
Música: Rock anos 80.
Revista: Nenhuma.
Filme: Frida Kahlo.
Um sentimento: Amor.
Ídolo: Dalai Lama.
Sonho de consumo: Não tenho.
Medo: Solidão.
Frase: "Tudo evolui; não há realidades eternas: tal como não há verdades absolutas." (Friedrich Nietzsche, filósofo alemão)
Com uma história muito parecida com a da Daslu (que começou em um quartinho), Idalina Fernandes Dal Toé, conhecida como Dalla, iniciou sua trajetória de sucesso aos 13 anos, vendendo roupas de cama, mesa e banho. Hoje, aos 52, olha pra trás e orgulha-se, com razão, de um passado marcado por muita luta e dedicação.
PITY: Como começou o namoro da Dalla com o segmento fashion?
DALLA: Aos 13 anos, eu fui ajudar em uma loja, a extinta Casa América, que vendia todo tipo de cama, mesa e banho, atividade que me encantou e que despertou um desejo incrível por venda. Ali, eu senti que tinha aptidão pela coisa. Devido à facilidade que sempre tive em me comunicar com as pessoas, aos 16 fui convidada para ser secretária de dentista, onde trabalhei por seis anos [período em que casou e teve a primeira filha, Thati]. Porém, eu me sentia incompleta, faltava algo. Foi quando perguntei ao meu patrão se ele se importaria caso eu vendesse alguns produtos de moda às suas pacientes. Ele apoiou a idéia e eu passei a aproveitar o seu espaço. Nunca tinha passado da Içara, quando uma paciente, em um bate-papo na sala de espera, se propôs a me levar para São Paulo, para fazer algumas compras. E lá fomos nós duas, no ônibus da Catarinense, que na época levava 20 horas de viagem. Me encantei pela cidade! Concluí que lá estava a solução para o vazio que eu sentia dentro de mim. De volta a Criciúma, convidei algumas pessoas para irem à minha casa ver as mercadorias. Elas amaram as roupas, fazendo com que eu embarcasse, na semana seguinte, de volta à Sampa, desta vez sozinha, apenas eu e Deus. Voltei e senti uma necessidade de um espaço maior para expor meus produtos. Minha casa era muito humilde, tinha a Thati, que era um bebê... Porém, eu não tinha um tostão para comprar sequer uma prateleira. Pedi apoio ao Lédio, meu marido, e conseguimos alugar uma salinha ao lado do consultório onde eu trabalhava. Arranquei as portas do único guarda-roupa que eu tinha, joguei umas almofadas no chão e por ali comecei meu atendimento. A paciente saía da consulta e eu a levava direto para o meu cantinho.
PITY: Pelo visto, logo, logo iria largar o emprego de secretária...
DALLA: Sim. Logo em seguida me demiti, deixando a minha irmã no lugar, e fui atrás de um espaço ainda maior, já que a sala se tornou pequena, me dedicando totalmente à minha nova profissão. Aluguei outra sala, no mesmo andar. Desta vez com uma estrutura melhor, com telefone, por exemplo. Batizei de "Toca da Onça", pois o lugar era escondido. Foi a primeira boutique em Criciúma localizada no primeiro andar (todas eram no térreo). Quando as pessoas passaram a acreditar no meu trabalho, eu engravidei do Kadú, meu segundo filho, e fui proibida pela médica de viajar, pois tinha engordado muito. Isso me frustrou e eu decidi curtir minha gestação. Vendi a loja.
PITY: Porém, não aguentou...
DALLA: Bingo! Um ano depois, eu e o Lédio vendemos nosso Fusca e alugamos uma garagem do Dilson Freitas, onde montamos outra lojinha, ainda mais ajeitadinha que as anteriores. Foi ali que despertou minha paixão por leitura, já que eu ficava lendo enquanto esperava pelas clientes. Existiam muitas lojas boas em Criciúma, com muitas marcas. Comecei também a buscar marcas melhores, que se identificassem com o meu trabalho e com o gosto das minhas clientes. Novamente, o espaço ficou pequeno e acabei indo para o outro lado da rua, em uma loja cinco vezes maior. Nessa época, eu já era vendedora exclusiva da Shopper.
PITY: Foi difícil conseguir uma marca de renome?
DALLA: Tive que provar meu profissionalismo, mas eles acreditavam no meu desempenho, na minha força de vontade. Na verdade, eles acreditaram muito em mim. A imprensa passou a me convidar para desfiles. O Carminati me deu uma força muito grande e a Fabiana Herrmann foi a primeira pessoa que acreditou em mim, em Criciúma. Ela era colunista e me ajudou muito, divulgando minhas marcas, minhas clientes, meus eventos... Onde me convidavam para desfilar minha loja, eu ia! Foram os meus desfiles que deram credibilidade para os desfiles de hoje em dia na cidade.
PITY: E o Della Giustina? Surge em qual fase de sua vida?
DALLA: Eis que surge a exigência de público de shopping. Há 20 anos, a moda, no Brasil, era comprar em shopping. Mesmo com minha loja estruturada, em um lugar nota 10, comecei a achar que deveria seguir o rumo da moda e atender às exigências do mercado. Fui pro Della e cheguei a comandar quatro lojas simultaneamente: a Detroit (moda masculina), a Dalla (moda feminina), a Twig (roupas importadas) e a Marcas e Manias (surfwear).
PITY: Das ruas para o shopping, do shopping de volta às ruas. Você foi pioneira desta nova onda que vem conquistando nossas lojistas, tirando-as de dentro do shopping e montando seus espaços nas calçadas...
DALLA: Novamente segui o rumo da moda. Senti que minhas clientes não tinham mais privacidade em ir ao shopping. A escassez de um bom estacionamento, que continua sendo um grande problema na cidade, e até o fato de elas circularem pelo shopping com as minhas sacolas, despertando ciúmes na outras lojistas, fizeram com que eu saísse de lá. O Della não tinha nada a me oferecer. Eu fui conversar com eles sobre as mudanças que o mercado estava exigindo e eles não me deram importância. Era hora de oferecermos algo mais ao nosso cliente, que viaja, sabe o que é bom, quer uma água fresca, um bom ar-condicionado, um abraço, um sorriso. Mas eles não me deram importância. Tanto é verdade que muitas outras lojistas seguiram atrás de mim.
PITY: Pensou alguma vez em desistir?
DALLA: Pensei. Achei que estava cansada, que não queria mais, que talvez já tivesse realizado os meus sonhos e que era tempo de curtir minha neta. Porém, depois de ler e assistir o livro e o filme "O Segredo", decidi que não deveria desistir no primeiro obstáculo. Me levantei do sofá, no Rincão, peguei um ônibus para Criciúma, cheguei na loja, olhei pra Di [seu braço direito há 25 anos] e disse: "Tenho que sair daqui. Isso daqui não serve mais pra nós".
PITY: Como você lida com a concorrência?
DALLA: Lido com sabedoria. Aprendi na Bíblia que devo cuidar do meu espaço, sem ficar me preocupando com o do concorrente. Sempre falava nas reuniões do shopping que não existe concorrência, existem parâmetros. Caso algo em meu negócio não esteja dando certo, tenho que buscar mudanças e observar qual a carência. Não olho com maus olhos os meus concorrentes. Cada um tem suas conquistas e todo mundo precisa de todo mundo. Aprendi isso vivendo 18 anos dentro do shopping. Sirvo de exemplo para muitas. Prova disso são as amizades feitas naquela época e que mantenho até hoje. Lembro quando a Valéria [da Código Mulher] quis sair do shopping. Ela foi à minha casa e abriu o coração. Eu dei várias dicas que poderiam combinar com o estilo de sua loja. Conheço a pessoa dela. Fizemos parte da mesma Igreja e vejo que ela é uma pessoa do bem.
PITY: E por falar em Igreja, Dalla virou evangélica?
DALLA: Evangélica renovada há 10 anos. Faço parte da Congregação Caminho de Deus. Oro todos os dias. Fui batizada pela Igreja e, desde então, fiz uma aliança com Deus que, daquele dia em diante, Ele seria o meu mestre. Ele comandaria a minha vida. Servindo a Ele encontrei mais paz no meu coração.
PITY: Dalla acorda e pega a primeira roupa do armário ou demora para se arrumar?
DALLA: Como uma boa ariana, sou muito prática em todos os aspectos. Tenho os lugares bem definidos no meu guarda-roupa, do maleiro à sapateira. Não gosto de atraso.
PITY: Estilo nasce com a pessoa?
DALLA: Olha, às vezes tenho dúvidas. Tem vezes que acho que sim, tem vezes que acho que a vida ensina. Te confesso isso porque me pego em certas situações que digo ter nascido pronta. Em outras, penso que preciso aprender muito. É uma coisa muito indefinida.
PITY: As mulheres de Criciúma se vestem realmente bem?
DALLA: Muito bem! Nossa, eu tenho orgulho de ser criciumense, de vê-las bem vestidas, impecáveis e muitas delas seguindo minhas orientações, o que me deixa muito feliz. Criciúma não perde nada para Paris, Milão, Nova York e para nenhum lugar do mundo. Desde a moda da Henrique Lage, acho tudo de muito bom gosto.
PITY: E os homens?
DALLA: Eu diria que se vestem de igual para igual. Os homens de Criciúma são bastante vaidosos, se preocupam com a aparência, com um bom terno, uma gravata, um bom sapato. Não perdem em nada para as mulheres.
PITY: É preciso muito dinheiro para vestir-se bem?
DALLA: Não. É preciso de um bom estado de espírito, bom gosto e uma boa orientação na hora da venda.
PITY: Como é vestir as filhas das suas primeiras clientes?
DALLA: Pity, eu estou na terceira geração de clientes. Já estou vestindo as netas delas, indo para a quarta geração! Isso é muito gratificante. Prova que tudo valeu a pena e que não podemos pensar somente no lucro, mas, sim, na realização profissional. Tenho cliente que compra comigo há 30 anos, desde minha primeira viagem [aquela, no busão da Catarinense].
PITY: E o que lhe deixa triste?
DALLA: A inveja. O fato de algumas pessoas não acreditarem no meu trabalho devido a comentários mesquinhas, frutos de muita maldade. Isso, na verdade, me fortalece, porque me faz acreditar que o bem está acima do mal e que não devemos nos deixar levar por pessoas que nos querem ver pelas costas.
PITY: Qual o segredo de suas megaproduções, sempre tão badaladas e cativantes?
DALLA: Procuro estar cercada de pessoas do bem. E vejo que todos esses profissionais realizam com tanto amor que acabam não se preocupando com o rendimento financeiro. Isso flui uma energia muito boa. As pessoas me prestigiam porque sentem a presença de Deus nos meus eventos.
PITY: Um bom atendimento necessita de?
DALLA: Conhecimento. É a base de tudo.
PITY: Já que costuma ler muito, que tal uma dica de leitura?
DALLA: "A Cabana" [William Young]. É maravilhoso! Todo mundo deveria ler esse livro.
PITY: Uma personalidade que admira no planeta fashion?
DALLA: Roberto Cavalli. Gosto muito do Tufi Duek, ele é o cara em administração! Mantém suas marcas no mercado há 30 anos. O Renato [Calimam], da Carmim, também. Passou por várias fases sócio-econômicas e continua firme e forte. Eu citaria vários nomes. Não conheço os donos da Damyller, mas devemos aplaudi-los. Acho eles de um conhecimento muito grande. Acreditaram na cidade, na marca e estão crescendo muito, assim como muitos empresários de Criciúma. Fiquei orgulhosa ao ver um outdoor da Lança Perfume [grife de Nova Veneza] em São Paulo. Assim como fico orgulhosa ao ver as lindas lojas que inauguram por aqui. Nós, lojistas, ficamos tristes quando soubemos que os consumidores locais saem daqui para comprar fora. Não que não possam comprar, mas deveriam primeiro procurar em nossa cidade, pois temos de tudo.
PITY: Como será a moda do inverno?
DALLA: O inverno, como sempre, é uma bela estação. Ela vem linda, chique, com muito xadrez, listras e tecidos reciclados. E uma boa notícia: os preços das grandes grifes estão baixando muito.
PITY: Na maturidade dos 52 anos, como classificaria seu momento pessoal atual?
DALLA: Um momento de êxtase, onde falo de mim não por vaidade, mas porque sou prova viva de que é possível vencer mesmo tendo inimigos por todos os lados. A mudança do shopping para a casa me fez repensar nos valores da vida. Hoje sou uma nova mulher, sem arrependimento do que fui, do que fiz ou de como eu era, mas com crescimento e mudanças em várias áreas. A idade proporciona momentos de reflexões, de introspecção.
PITY: Qual o seu recado para as meninas que estão começando a vender, exatamente como um dia aconteceu com você?
DALLA: Morro de vontade de escrever um livro! Tenho até o título: "De sacoleira à butiqueira". Eu diria que se começa com o pé no chão, devagar. Vender não é difícil, difícil é receber. Não tenha pressa na hora da venda. Venda para quem valoriza o seu produto. Esse é o segredo para chegar aonde se quer. Não tenha medo de ficar com o produto encalhado. Venda 50, mas receba 50. Não venda 100 para receber 50. E me coloco à disposição de todas elas para qualquer tipo de orientação. É só aparecerem lá na loja.
PITY: Planos para 2009?
DALLA: Nossa, são vários. Eu achei que iria me acomodar, mas ano que vem, com certeza, irei ampliar a linha festa/gala. Existia uma carência muito grande na cidade. As pessoas saíam para buscar roupas fora daqui. Foi quando eu estava em Nova York e tive uma grande sacada, passando a trazer lindos vestidos para Criciúma. Porém, não basta você viajar, comprar a roupa e trazer para vender. Necessita-se de um funcionário que tenha conhecimento para poder indicar o traje ideal, por exemplo, para a mãe ou para a madrinha da noiva. Cheguei na hora certa e arrasamos. Bailes do Criciúma Clube e Mampituba, festas de 15 anos, casamentos, formaturas... Sucesso total! Toda região já enxergou minha loja. Hoje, eu coloco outdoor não só no Centro de Criciúma, mas em 10 municípios da região.
PITY: Dedica sua vitória a alguém?
DALLA: Primeiro a Deus, por ter me permitido chegar até aqui. Depois ao meu marido e, em terceiro, à Di.